Tuesday, October 2, 2018

Discussão sobre o conto “Lisetta” de Alcântara Machado


Reunião do Grupo de Estudos em Medicina Narrativa – 27/09/2018
Setor de Neuro-Humanidades – Disciplina de Neurologia – EPM-Unifesp .

Discussão sobre o conto “Lisetta” de Alcântara Machado

1 – Sobre o enredo.

1.A - Discutiu-se sobre “como, na verdade, criança é má”.
     A partir de Freud, começa a haver um questionamento a respeito da ideia de “total inocência da criança”, como se nascesse com uma tabula rasa, em termos emocionais; a partir de noção de inconsciente e de conflitos do ego surgem situações de tendências egocêntricas que comprometem os comportamentos de relações. Alcântara Machado nos anos 1920 foca essa possibilidade.

1.B – Alcântara Machado, em sua obra “Brás, Bexiga e Barra Funda”, reúne contos com temática em torno de diferenças sociais, ou ainda sobre conteúdo existencial da classe trabalhadora, ou da classe pobre dos anos 1920, em São Paulo, com a presença de imigrantes pobres. Ao mesmo tempo em que têm certo traço cômico, suas narrativas sempre têm algum aspecto triste e singelo, marcando diferenças entre classes sociais.

2 – Sobre a construção do texto.
     O autor tem singularidades próprias em sua forma de escrever que lembra os modernistas e lembra uma linguagem jornalística. Com algumas frases curtas, comunica de forma mais veemente certas sutilezas que marcam sua narrativa.

 2.A -   Seguem-se alguns trechos.

“Lisetta começou a namorar o bicho. Pôs o pirulito de abacaxi na boca. Pôs mas não chupou. Olhava o urso. O urso não ligava. Seus olhinhos de vidro não diziam absolutamente nada. No colo da menina de pulseira de ouro e meias de seda parecia um urso importante e feliz”.
O autor acentua a troca de atenção da menina do pirulito para o urso. Os olhos de vidro do urso indicam que ele “não ligava”. Logo a seguir vem a explicação. O urso parecia importante e feliz por estar “no colo da menina de pulseira de ouro e meias de seda”. Lisetta passa a ver no urso a extensão da menina rica.

“A menina rica viu o enlevo e a inveja da Lisetta. E deu de brincar com o urso. Mexeu -lhe com o toquinho do rabo: e a cabeça do bicho virou para a esquerda, depois para a direita, olhou para cima, depois para baixo. Lisetta acompanhava a manobra. Sorrindo fascinada. E com um ardor nos olhos! O pirulito perdeu definitivamente toda a importância”.
Com a frase “O pirulito perdeu definitivamente toda a importância” o autor resume o encanto de Lisetta com as peripécias do urso produzidas pela menina rica que percebe o interesse de Lisetta. Faz uso daquilo que indica a distração infantil de Lisetta: o pirulito. 

“Lisetta sentia um desejo louco de tocar no ursinho. Jeitosamente procurou alcançá-lo. A menina rica percebeu, encarou a coitada com raiva, fez uma careta horrível e e
Ao mencionar o custo e o local de compra do urso acentua-se a diferença entre as meninas. Lisetta quer tocar algo que para ela é inalcançável.

“A mãe da menina rica não respondeu. Ajeitou o chapeuzinho da filha, sorriu para o bicho, fez uma carícia na cabeça dele, abriu a bolsa e olhou o espelho”.
Com esse fim de frase está indicada a indiferença da mãe da menina do urso, e também seu egocentrismo, olhando para o espelho, uma imagem narcísica, sem ter respondido.

“O urso lá se fora nos braços da dona. E a dona só de má, antes de entrar no palacete estilo empreiteiro português, voltou-se e agitou no ar o bichinho. Para Lisetta ver. E Lisetta viu”.
Aqui o autor expressa de maneira clara o lado o traço de maldade da dona do urso, que aqui já não se mexe ou se manifesta, mas passa a ser “da dona”. E acentua-se que Lisetta viu.
Após ter apanhado em casa por seu comportamento no bonde, Lisetta ganha do irmão mais velho uma espécie de “urso” improvisado, fruto da criatividade desse irmão, para consolar a menina.

“Lisetta deu um pulo de contente. Pequerrucho. Pequerrucho e de lata. Do tamanho de um passarinho. Mas urso.
Os irmãos chegaram -se para admirar. O Pasqualino quis logo pegar no bichinho. Quis mesmo tomá-lo à força”.
A frase “Mas urso” tem uma força especial neste ponto da narrativa. Como que dá uma solução para um conflito, um desejo, uma instabilidade surgida no início do conto.

     "Correu para o quarto. Fechou -se por dentro”. Alcântara Machado brilhantemente fecha essa ‘estória’ com a frase “Fechou-se por dentro”, indicando não apenas que ela se fechou no quarto, mas também que se fechou dentro de si mesma.
2.B – Outros aspectos.
    Lisetta, sua mãe, Dona Mariana, a família Garbone, Ugo, Pasqualino têm o nome mencionado no conto. A menina dona do urso e a mãe dela não têm o nome mencionado. São desconhecidas, distantes.
     Apenas Lisetta, sua mãe e Ugo falam. A menina do urso e sua mãe nada falam. Uma que mexe com o urso, a outra que faz um agrado na filha e no urso e pega o espelho.
     Alcântara Machado usa a linguagem própria das personagens, escrevendo em italiano quando esse é o caso da língua de quem fala. Em um conto que não usa de muitas palavras, consegue retratar todo um contexto através dessa narrativa.



Thursday, August 9, 2018

Grupo de Estudos em Medicina Narrativa

O Grupo de Estudos em Medicina Narrativa - GEMNA -  foi criado no fim de 2017, a partir do interesse de diversos profissionais da Saúde e das Ciências Humanas em estudar esse novo campo intitulado "Medicina Narrativa". Embora haja a palavra "medicina", isso não implica em que participem apenas profissionais dessa área especificamente, mas, pelas próprias características desse campo, quaisquer interessados podem participar de estudos em Medicina Narrativa. Por certas peculiaridades, é evidente que o interesse maior seja de profissionais da Saúde e das Ciências Humanas. 
A Medicina Narrativa foi criada, com esse nome, no ano 2000, pela Profa. Dra. Rita Charon da Universidade de Columbia em Nova York. A Dra. Charon é professora de Clínica Geral e fez Doutorado em Literatura Inglesa. Antes dela criar essa área já existiam algumas iniciativas similares nos cursos de medicina dos Estados Unidos, como, por exemplo, a área "Medicina e Literatura". Mas, a criação da área e do termo "Medicina Narrativa" passou a dar especial destaque para a correlação entre a verbalidade, as linguagens e a literatura e o campo da saúde. 
No dizer da Dra. Charon Medicina Narrativa é "a Medicina praticada com 'competência narrativa' para reconhecer, absorver, interpretar e ser tocado pelas histórias (e estórias) de doenças (e de doentes).  Na nossa tradução, acrescentamos "e estórias" e acrescentamos "e de doentes", porque a tradução literal pode deixar de expressar o significado mais profundo do texto original. 
Nas últimas décadas, em português não temos mais a palavra "estória", mas apenas "história" para se referir tanto ao sentido de "história como área de estudo, ou ainda como um relato cronológico de uma sequência de fatos", bem como "história como nome de relatos fictícios ou reais que têm certa dinâmica de começo, meio e fim". Em inglês existe o termo "history" para a História como área de estudo, ou como, por exemplo a "história clínica" e existe o termo "story" para se referir a uma narrativa fictícia ou real, que tenha 'começo, meio e fim'. Na conceituação de Medicina Narrativa em inglês o termo referido é "story", similar ao nosso antigo "estória". 
Outro termo é "doenças" na frase "e ser tocado pelas histórias (e estórias) de doenças". Em um primeiro momento pode causar perplexidade essa conceituação, na medida em que procuramos ensinar que "não existem doenças, existem doentes". Mas, se nos ativermos ao sentido original do termo vemos que a palavra "ilness", em inglês, não se refere necessariamente a "doença", cujo melhor termo seria "disease", mas se refere mais ao "adoecer" do paciente, ou seja, a como o doente vivencia sua própria doença. Desse modo, a ideia de "não existem doenças, existem doentes" se mantém, na medida em que "o adoecer" se remete ao doente propriamente dito e suas características como pessoa em seu todo. 
A Dra. Charon considera como importantes ferramentas para esse estudo a Literatura e a Narratologia, bem como estudos da relação médico-paciente ou ainda profissional-paciente, além das outras áreas de Ciências Humanas e Ciências da Saúde.
O Grupo de Estudos em Medicina Narrativa - GEMNA - pretende desenvolver atividades teóricas, teórico-práticas e práticas relacionadas com esse campo, através de aulas, discussões, debates, palestras, contato com pacientes e acompanhantes, seja por meio de seus colaboradores, bem como com a participação de estudantes universitários de variados cursos.